dimanche 1 février 2009

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Todo o percurso dos dez andares para baixo foi feito em silêncio. Paramos no térreo nós, ficaram eles no elevador. Caminhamos lentamente até a catraca do prédio, onde registramos nossa saída para o almoço, e foi apenas ao sair na rua que o mais velho mudou de postura e se lançou ao assunto.

- Meu Deus do céu, o que é que foi aquilo, Fabiano?, eu nem consegui respirar. A mulher hoje estava um espetáculo.

Todos fizemos que concordamos e os três então se animaram a discutir sobre as mulheres com quem já tinham trabalhado, como aliás era bastante comum quando saíam apenas homens para um almoço de negócios; era como se esse assunto comum criasse uma certa intimidade entre os participantes da conversa, uma confiança de que se estava tratando entre homens afinal de contas. Às vezes inclusive saíamos junto com uma secretária ou subordinada e apenas eu me mantinha calado enquanto os outros faziam esse tipo de comentário, e isso até que alguém estranhasse o silêncio e me interpelasse, normalmente do jeito mais natural: - E esse aí, gosta de mulher também? A pergunta era sempre dirigida ao Fabiano, que se punha então a contar alegremente como eu tinha vindo do interior havia muito pouco tempo e era de fazer e não de falar. Então normalmente todos riam e se punham a contar histórias de quando tinham a minha idade ou até mesmo histórias recentes, e eu apenas fazia o meu papel de jovem constrangido e me limitava a dar risinhos de cumplicidade. Desta vez, porém, foi o próprio Fabiano quem me colocou na história.

- Pois vejam que é o Gabriel quem vai se dar bem: é ele quem mais vai trabalhar com ela se a gente fechar esse contrato.

No mesmo instante os outros dois me olharam fixamente, e eu consegui apenas empalidecer. O mais velho foi quem prosseguiu:

- Olhe, Fabiano, que nós vamos fazer um acordo: nós assinamos o contrato, mas você tem que prometer colocar essa mulher em todas as reuniões. Acho até que vou ligar pros nossos advogados e pedir pra incluir essa cláusula, hehe, como coisa obrigatória: a Contratada fica obrigada a levar sua advogada a todas as reuniões com a Contratante sob pena de nulidade do presente contrato. Está bom assim? Pode até mandar lá pros suíços que, olhe, estou certo que eles vão aprovar na hora o contrato também.

O Fabiano sorriu: - Pois não precisa perguntar pra suíço nenhum, e nem botar nada no contrato. Fico eu aqui solenemente responsável por garantir a presença dela em cada reunião com os senhores.

O resto do almoço transcorreu mais ou menos da mesma forma, com brincadeiras e até a criação de um apelido pra que pudéssemos falar dela sem sermos notados: o mais novo contou de uma história que teve quando viajou a trabalho pra Espanha e acabou saindo com uma dançarina de flamenco, notando como a advogada tinha mesmo esse jeito de espanhola do sul, e o Fabiano respondeu que ela era mesmo filha de imigrantes mas ele não sabia muito bem de onde. O mais velho disse então caindo na gargalhada que ela deveria ficar conhecida como a Andaluza, e se pôs a simular cláusulas do contrato mencionando que a Contratada deveria ser sempre representada pela sua advogada fulana de tal, entre parênteses, Andaluza.

O mais novo observou: - Andaluz pra mim é raça de cavalo!, e o mais velho disse alguma coisa como que precisava então começar a entender mais de cavalo. Eu então lembrei que um tio meu criava cavalos, e o mais novo retrucou: - Eita, Fabiano, que de cavalo o menino entende! Vamos ver se daqui até o fim dessa história ele começa a entender de mulher também!

Pagamos a conta e voltamos mais ou menos no mesmo clima, conversando ora sobre mulheres, ora sobre cavalos, ora um pouco de cada coisa. À tarde tivemos uma outra reunião, onde acertamos valores e condições de entrega do equipamento, e foi só mais à noite, depois de termos marcado a reunião do dia seguinte, que o Fabiano veio me falar sobre o meu trabalho dos próximos meses.

samedi 31 janvier 2009

Edifício Hamelin

"We control life, Winston, at all its levels. You are imagining that there is something called human nature which will be outraged by what we do and will turn against us. But we create human nature."

- George Orwell

"pois cada amor é único e violento à sua própria maneira"

- ana rüsche

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Não. Ou melhor, eu ia começar dizendo não. A história, afinal de contas, poderia ter começado em qualquer outro lugar, e talvez até desse na mesma. Poderíamos ter começado numa cidadezinha do interior, onde uma carroça passa lentamente, ou na salinha de espera de um desses edifícios que sobrevoam a cidade, onde um jovenzinho aguarda apreensivo uma entrevista de emprego sob o olhar indiferente da secretária. Mas não seria possível, não é mesmo?, a história precisa começar onde ela vale a pena ser contada, e só depois é que as coisas vão fazendo sentido.

Porém, o que acontece nesse caso é que a história que vale a pena ser contada começa justamente no lugar mais desinteressante, isto é, do lado de fora daquela salinha de espera, no elevador que eu havia pegado já mais de cem vezes quando a história começa. E que era como um elevador normal de qualquer dos prédios daquela grande avenida, isto é, uma porta quadripartida de metal escovado, três espelhos, uma câmera, um painel com botões e furinhos. E que, até onde me interessava, só possuía duas paradas: o térreo e o 14° andar. Como havia um outro elevador que servia até o 10° e nos andares superiores ficava a sede um banco que tinha um elevador privativo, normalmente eu só precisava torcer para o elevador não parar nos três andares que me separavam da empresa, de forma que não fosse necessário abrir espaço e dar bom dia para desconhecidos.

Porém, justamente naquele dia, quando eu ia descendo para almoçar com os outros três, o elevador parou no 11° andar e entraram não uma, mas três pessoas, causando uma certa superlotação. Um deles era um velho, ou melhor, um senhor mais velho. Era claro que ainda trabalhava, e que detinha uma posição social alta, estando longe ainda da idade em que os velhos se sentem livres de preocupações sociais. Vestia um terno evidentemente caro e comprado recentemente, tinha os cabelos brancos bem cortados e uma dessas barrigas que identificam alguém que toma bons vinhos e come em bons restaurantes. O outro era um jovem executivo, filho do velho ou um subordinado, num terno mais claro, carregando com as duas mãos uma pasta. O executivo sorriu e segurou a porta do elevador, mas o velho não entrou; ao contrário, abriu espaço com o corpo. Foi então que notei a terceira pessoa, que estava fora do meu ângulo de visão. Pelo olhar do Fabiano, vi que alguém se aproximava, mas só quando ela entrou e ficou visível pra mim é que tomei o choque.

Um terninho cinza quadriculado. Óculos escuros. Salto, saia e blusa justa. Da minha altura, talvez mais. Algumas jóias prateadas, com pequenos brilhantes; no pescoço, um crucifixo de prata estilizado. A pele, clara do nascimento, fôra cuidadosamente escurecida na disciplina dos dias de férias passados ao sol da manhã ou da tardezinha. Os cabelos, naturalmente bonitos, também traziam, na sua perfeição, a marca invisível do esforço: soltos, muito pretos, muito lisos e até brilhantes, paravam impecavelmente na altura do pescoço. À elegância dos outros dois, ela somava horas e horas de abdominais e spinning, sanduíches de ricota engolidos na academia enquanto toda a avenida se distraía nos restaurantes. Cada centavo investido no terninho era como para expor essas horas extras de trabalho. A saia, exibindo o terço inferior da coxa, passava a uns poucos centímetros da vulgaridade, e o sorriso profissional evitava toda impressão de disponibilidade. Tudo naquela figura - naquela aparição - havia sido pensado e trabalhado para que se soubesse com toda a certeza que ali estava uma mulher inatingível.

- Bom dia.

Só eu não a conhecia.