Não. Ou melhor, eu ia começar dizendo não. A história, afinal de contas, poderia ter começado em qualquer outro lugar, e talvez até desse na mesma. Poderíamos ter começado numa cidadezinha do interior, onde uma carroça passa lentamente, ou na salinha de espera de um desses edifícios que sobrevoam a cidade, onde um jovenzinho aguarda apreensivo uma entrevista de emprego sob o olhar indiferente da secretária. Mas não seria possível, não é mesmo?, a história precisa começar onde ela vale a pena ser contada, e só depois é que as coisas vão fazendo sentido.
Porém, o que acontece nesse caso é que a história que vale a pena ser contada começa justamente no lugar mais desinteressante, isto é, do lado de fora daquela salinha de espera, no elevador que eu havia pegado já mais de cem vezes quando a história começa. E que era como um elevador normal de qualquer dos prédios daquela grande avenida, isto é, uma porta quadripartida de metal escovado, três espelhos, uma câmera, um painel com botões e furinhos. E que, até onde me interessava, só possuía duas paradas: o térreo e o 14° andar. Como havia um outro elevador que servia até o 10° e nos andares superiores ficava a sede um banco que tinha um elevador privativo, normalmente eu só precisava torcer para o elevador não parar nos três andares que me separavam da empresa, de forma que não fosse necessário abrir espaço e dar bom dia para desconhecidos.
Porém, justamente naquele dia, quando eu ia descendo para almoçar com os outros três, o elevador parou no 11° andar e entraram não uma, mas três pessoas, causando uma certa superlotação. Um deles era um velho, ou melhor, um senhor mais velho. Era claro que ainda trabalhava, e que detinha uma posição social alta, estando longe ainda da idade em que os velhos se sentem livres de preocupações sociais. Vestia um terno evidentemente caro e comprado recentemente, tinha os cabelos brancos bem cortados e uma dessas barrigas que identificam alguém que toma bons vinhos e come em bons restaurantes. O outro era um jovem executivo, filho do velho ou um subordinado, num terno mais claro, carregando com as duas mãos uma pasta. O executivo sorriu e segurou a porta do elevador, mas o velho não entrou; ao contrário, abriu espaço com o corpo. Foi então que notei a terceira pessoa, que estava fora do meu ângulo de visão. Pelo olhar do Fabiano, vi que alguém se aproximava, mas só quando ela entrou e ficou visível pra mim é que tomei o choque.
Um terninho cinza quadriculado. Óculos escuros. Salto, saia e blusa justa. Da minha altura, talvez mais. Algumas jóias prateadas, com pequenos brilhantes; no pescoço, um crucifixo de prata estilizado. A pele, clara do nascimento, fôra cuidadosamente escurecida na disciplina dos dias de férias passados ao sol da manhã ou da tardezinha. Os cabelos, naturalmente bonitos, também traziam, na sua perfeição, a marca invisível do esforço: soltos, muito pretos, muito lisos e até brilhantes, paravam impecavelmente na altura do pescoço. À elegância dos outros dois, ela somava horas e horas de abdominais e spinning, sanduíches de ricota engolidos na academia enquanto toda a avenida se distraía nos restaurantes. Cada centavo investido no terninho era como para expor essas horas extras de trabalho. A saia, exibindo o terço inferior da coxa, passava a uns poucos centímetros da vulgaridade, e o sorriso profissional evitava toda impressão de disponibilidade. Tudo naquela figura - naquela aparição - havia sido pensado e trabalhado para que se soubesse com toda a certeza que ali estava uma mulher inatingível.
- Bom dia.
Só eu não a conhecia.
Porém, o que acontece nesse caso é que a história que vale a pena ser contada começa justamente no lugar mais desinteressante, isto é, do lado de fora daquela salinha de espera, no elevador que eu havia pegado já mais de cem vezes quando a história começa. E que era como um elevador normal de qualquer dos prédios daquela grande avenida, isto é, uma porta quadripartida de metal escovado, três espelhos, uma câmera, um painel com botões e furinhos. E que, até onde me interessava, só possuía duas paradas: o térreo e o 14° andar. Como havia um outro elevador que servia até o 10° e nos andares superiores ficava a sede um banco que tinha um elevador privativo, normalmente eu só precisava torcer para o elevador não parar nos três andares que me separavam da empresa, de forma que não fosse necessário abrir espaço e dar bom dia para desconhecidos.
Porém, justamente naquele dia, quando eu ia descendo para almoçar com os outros três, o elevador parou no 11° andar e entraram não uma, mas três pessoas, causando uma certa superlotação. Um deles era um velho, ou melhor, um senhor mais velho. Era claro que ainda trabalhava, e que detinha uma posição social alta, estando longe ainda da idade em que os velhos se sentem livres de preocupações sociais. Vestia um terno evidentemente caro e comprado recentemente, tinha os cabelos brancos bem cortados e uma dessas barrigas que identificam alguém que toma bons vinhos e come em bons restaurantes. O outro era um jovem executivo, filho do velho ou um subordinado, num terno mais claro, carregando com as duas mãos uma pasta. O executivo sorriu e segurou a porta do elevador, mas o velho não entrou; ao contrário, abriu espaço com o corpo. Foi então que notei a terceira pessoa, que estava fora do meu ângulo de visão. Pelo olhar do Fabiano, vi que alguém se aproximava, mas só quando ela entrou e ficou visível pra mim é que tomei o choque.
Um terninho cinza quadriculado. Óculos escuros. Salto, saia e blusa justa. Da minha altura, talvez mais. Algumas jóias prateadas, com pequenos brilhantes; no pescoço, um crucifixo de prata estilizado. A pele, clara do nascimento, fôra cuidadosamente escurecida na disciplina dos dias de férias passados ao sol da manhã ou da tardezinha. Os cabelos, naturalmente bonitos, também traziam, na sua perfeição, a marca invisível do esforço: soltos, muito pretos, muito lisos e até brilhantes, paravam impecavelmente na altura do pescoço. À elegância dos outros dois, ela somava horas e horas de abdominais e spinning, sanduíches de ricota engolidos na academia enquanto toda a avenida se distraía nos restaurantes. Cada centavo investido no terninho era como para expor essas horas extras de trabalho. A saia, exibindo o terço inferior da coxa, passava a uns poucos centímetros da vulgaridade, e o sorriso profissional evitava toda impressão de disponibilidade. Tudo naquela figura - naquela aparição - havia sido pensado e trabalhado para que se soubesse com toda a certeza que ali estava uma mulher inatingível.
- Bom dia.
Só eu não a conhecia.
La moitié de juillet a dejá passée.
RépondreSupprimerJ'espère que l'auteur ne s'est pas perdu....